Série Vivências no MP relembra encontros da classe na sede do Ministério Público
Jussara Lahude
Procuradora de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul
A HORA DO CAFEZINHO
Há muito tempo desejo registrar, em palavras, a riqueza do convívio que se revela quando, junto de alguns colegas, decidimos tomar um cafezinho depois do almoço, no restaurante do prédio das Torres. A criação desses espaços em nosso ambiente de trabalho foi significativa e especial, pois aproximou colegas e servidores e tornou a convivência mais humana e espontânea.
Sempre apreciei saborear uma xícara de café. Esse era um hábito diário em minha família, que preparava a bebida segundo a tradição herdada dos antepassados de meu pai, imigrantes sírios que vieram para o Brasil. Se algum leitor desejar a receita, terei prazer em compartilhá-la. Mas, voltando ao propósito deste artigo, confesso que, a cada encontro com meus colegas — quando nos reunimos em torno das mesas da cafeteria — tenho a nítida sensação de que todos nós participamos de uma breve terapia coletiva.
Nesses bate-papos, sem dúvida, fortalecemos nossos laços. Os assuntos são os mais variados possíveis. Fala-se muito de futebol — talvez o tema número um — o que deixa a autora destas linhas um tanto à deriva, pois pouco ou nada entende do assunto. Em outros dias, conversamos sobre o futuro institucional, quase sempre com a preocupação recorrente em torno da aposentadoria. Esse momento, embora varie conforme o tempo de carreira, inevitavelmente chegará. O tema costuma vir à tona depois das reuniões da nossa Associação ou após alguma notícia impactante vinda de Brasília.
Cada colega procura expressar o que lhe inquieta, e todos os que estão ao redor da mesa do cafezinho oferecem seus palpites sobre o quanto a notícia em pauta pode — ou não — afetar nossa carreira e nossa vida pessoal. Assim, compartilhamos dúvidas e repartimos aflições. A hora do cafezinho muitas vezes se assemelha a uma sessão de terapia — com a vantagem de não exigir honorários.
Tenho certeza de que muitos colegas, eu inclusive, sentirão falta desses encontros quando chegar o final da carreira. Há também os dias em que o café vem acompanhado de histórias leves e risadas generosas. E, quando percebo que o entusiasmo ameaça ultrapassar os limites do decoro, intervenho com delicadeza para preservar o bom tom da conversa:
— Vamos pedir mais um cafezinho? 
