Em artigo em ZH, Luciana Casarotto alerta para o aumento de feminicídios no RS
A vice-presidente de Núcleos da Associação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (AMP/RS), Luciana Cano Casarotto, assina artigo publicado nesta sexta-feira, 23 de janeiro, no jornal Zero Hora, no qual alerta para o avanço dos casos de feminicídio no Estado. No texto “Será você?”, a promotora da Vara de Feminicídios de Porto Alegre aborda a violência contra as mulheres e comportamentos agressivos frequentemente naturalizados no ambiente doméstico.
O artigo reforça que controle não é cuidado, que respeito não se confunde com obediência e que agressões, físicas ou psicológicas, são inaceitáveis. Também destaca que homens socialmente vistos como bons profissionais ou pais de família podem cometer atos de extrema violência.
A análise dialoga com dados recentes: em apenas três semanas, o Rio Grande do Sul já superou o número de feminicídios registrados em todo dezembro de 2025, com sete mortes motivadas por razão de gênero — média de um caso a cada três dias.
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Será você?
Luciana Cano Casarotto
Promotora de Justiça da Vara de Penalidades de Porto Alegre e vice-presidente da Associação do Ministério Público
No Estado do Rio Grande do Sul, em 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança, ao menos uma mulher foi vítima de tentativa de feminicídio por dia – 297 delas sobreviveram e 80 morreram. Dói saber que em 2026, em muitos lares, a violência crescente será ignorada na expectativa de que não volte a acontecer. Pelo ato de um homem, uma família perderá o chão, o teto, o cuidado, a rotina, o caminho. E muitos pensarão, ainda com o sangue da mulher em suas mãos: “O que foi que eu fiz?”. E então será tarde.
Talvez algum potencial agressor esteja lendo este texto agora. Será você? Agressores domésticos podem ser considerados excelentes funcionários, amigos e até “bons pais de família”. Poucos minutos e a vida de todos os envolvidos nas redes de seus afetos, e da vítima, estará mudada para sempre. A partir dali, quem sobreviver verá o tempo passar e carregará consigo as marcas da violência em sua alma, esteja onde estiver. Mesmo na prisão, considerando que dados da Polícia Civil gaúcha apontam que 80% dos feminicidas são presos – 12,5% morrem. Pense nisso.
Talvez algum potencial agressor esteja lendo este texto agora
Se você identifica em si traços de agressividade dirigida à mulher ou ex-mulher com quem convive, saiba que ela não lhe deve obediência. Que o respeito não se mede pela roupa que ela usa. Que, se ela está conversando com alguém em redes sociais, isso não lhe dá o direito de agredi-la. Nada dá. Saiba que ela não deveria perdoá-lo. Agressões físicas e mesmo as psicológicas não merecem perdão.
Relacionamentos são construídos por vezes com regras muito particulares. Os limites do que é tolerável para uns não são os mesmos para outros. Separações são comuns e até esperadas. Mas não imagine que qualquer tratamento criminoso, como ameaças, perseguições, o menosprezo absoluto que diminui e as agressões físicas, será tolerado. Você será condenado. Mas isso será pouco perto das consequências de seus atos. Mudar é possível, e há caminhos para isso. Procure ajuda. Diminuir os alarmantes índices de feminicídio está em suas mãos.
Literalmente.